SÍSIFO (PAPEL E PENA!)
— poema dramático curto —
Quando estiver à beira do abismo imoto,
Se dono ainda do meu punho eu for,
Hei de querer papel e pena!...
Hei de retratar do anjo negro e feminil
O seu olhar fatídico,
O magro seio, a mão sem leite,
A foice rubra já de mim a esvair-me...
E eis que, dessarte, se me leva Ela,
Eu lhe roubo o mistério e nele — vivo!
Como um Sísifo poético, irreverente,
Passando a ser a sua sombra a cada dia,
Assim como foi Ela, infanda,
A minha e a dos meus pais e filhos.
Sim: no útero da letra,
Eternamente grávida,
Eu me moverei letárgico,
Hipotético,
E cada vez que a luz de uns olhos
Trespassar os meus vitrais de ecos,
Minh’alma cantará de novo!
A folha é uma lagoa de lua e espelho
Que aos meus sonhos bebe,
E às minhas tintas,
E eu nela reverbero — qual Narciso,
Já me afogo, e, enfim: renasço!
E me eternizo...
A folha é a uma vela inflada,
Branca contra o aflato surdo, sussurrante
Que a impele e canta, mornamente,
Dando asas às minhas caravelas...
Ai, que me tragam algum papel e pena! por um deus qualquer!
Quando à beira da falésia e do mar cego eu bruxulear!...
Hei de riscar no mármore etéreo
O meu último arrepio, a náusea derradeira,
O medo;
E uma saudade apaziguada deixe ver,
Magenta e ocra, a cena de uma vida inteira:
Vida excepcional, onde frustrações e vitórias
Completam-se num todo desarmônico, ilógico,
Mas intencional e metodicamente urdido.
Que a folha, então, se me dê
Como a púbis sem mácula da moça,
E que o meu verso final tenha o sabor
Do primo: a mesma surpresa diante
Da palavra nua, a mesma virgindade;
Um leve tremor, trespassando-me a mão,
Continue no fone e na forma,
Até que me colha, de entre esplêndidos fractais,
Em arquejos, suores, contrações e ânsias...
O silêncio.
Igor Buys
16 de setembro de 2010
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